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Revista Isto É - Medicina & Bem-estar 24/10/2007
Da
boca para o resto do corpo
Estudos
confirmam que males como a demência e o parto prematuro
podem estar associados a problemas bucais
GREICE RODRIGUES
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A
relação entre a boca e a saúde do
resto do corpo pode ser bem mais importante e delicada
do que se imagina. A ciência tem descoberto mais
evidências de que é muito forte a ligação
entre as condições bucais e doenças
cardíacas, cerebrais e alguns outros males. O
mais recente achado neste sentido é um estudo
feito por cientistas da Universidade Kentucky, nos Estados
Unidos. Divulgada há duas semanas, a pesquisa
mostrou que a perda de dentes em idosos pode ser um sinal
de que um quadro de demência está em desenvolvimento.
Os
pesquisadores concluíram que o mesmo processo
que danifica os dentes - uma infecção
causada por bactéria - pode também prejudicar
o funcionamento das células cerebrais. O problema é que
esse último efeito só será sentido
anos depois. Daí a importância do estudo.
Ele mostra que é preciso ficar atento aos casos
em que a perda dentária é acentuada.
Afinal, ao mesmo tempo, neurônios podem estar
sendo atingidos.
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LIMPEZA Segundo
Andrade, a boa higienização bucal evita a
periodontite
Alguns males que se iniciam na boca |
De fato, diversos estudos mostram que as bactérias bucais, em tese
protetoras da boca, podem ser muito danosas. Essas
ameaças justificam a importância de uma boa higienização
bucal para evitar a cárie e a periodontite. No primeiro caso, o
problema é causado por placa bacteriana que se fixa à superfície
do dente. A periodontite é uma infecção crônica
causada por bactérias que destroem os tecidos que dão sustentação
aos dentes. "Essa doença tem um componente genético,
mas está diretamente ligada a má higienização
bucal", explica o periodontista Antônio Carlos Canabarro Andrade,
da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Sem cuidado adequado, as bactérias
se proliferam, entram na corrente sangüínea e provocam danos
graves a vários órgãos do organismo.
Um dos principais atingidos é o coração. "Cerca
de 30% dos casos de endocardite bacteriana, infecção que
acomete as válvulas do coração, advêm de bactérias
da boca", afirma o estomatologista Carlos Eduardo Ribeiro da Silva,
da Universidade Federal de São Paulo. A doença pode levar à morte.
A empresária baiana Geane de Carvalho, 35 anos, descobriu que tinha
a doença quando começou a sentir dores, fraqueza e muito
cansaço. "Na adolescência tive um problema bucal que
não foi adequadamente tratado. Foi o que provocou a doença",
conta.
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| CORAÇÃO Geane
teve infecção cardíaca causada por
bactéria presente na boca |
Os prejuízos
causados pela infecção podem chegar ao cérebro.
Os microrganismos se instalam dentro dos vasos que irrigam
o órgão e provocam a interrupção
do fluxo na região. A condição pode levar
ao acidente vascular cerebral, conhecido como derrame. A infecção
bucal tem ainda o potencial de adiantar o parto - ela estimula
contrações e a dilatação do colo
do útero - e de complicar o tratamento da diabete. "Os
pacientes têm maior risco de desenvolver doença
periodontal", esclarece o periodontista Jorge Ferreira
de Araújo, do Hospital das Clínicas de São
Paulo. Naqueles que têm o controle da taxa de açúcar
deficiente, os danos são ainda maiores.
Apesar
dos riscos, o problema ainda é negligenciado. "Em
parte porque no início não há dor. Pode
ocorrer sangramento durante a escovação, mas
as pessoas ignoram esse sintoma", afirma o
patologista bucal Panteles Varvak, da Associação
Brasileira de Odontologia. Ele alerta, porém, que
mudanças na mucosa bucal devem ser vistas com atenção. "Uma
lesão que não regride em 15 dias precisa ser
investigada", defende Varvak.
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Alterações nas articulações da mandíbula
também podem provocar prejuízos. Uma disfunção
na articulação que liga a mandíbula ao crânio,
chamada de ATM, é uma das principais responsáveis por
dor de cabeça e dor facial. Entre os fatores desencadeantes
dessa disfunção estão a ansiedade e o bruxismo
- ato de ranger dentes durante o sono. "Muitas pessoas passam
a vida tratando enxaqueca, quando na verdade é uma disfunção
da ATM", afirma Simone Silveira, especialista no assunto. A
advogada Neusa Ortiz sabe bem o que é isso. Durante anos ela
tratou, sem sucesso, uma dor de cabeça, mas o problema era
na articulação da mandíbula, causado pelo bruxismo. "Procurei
um especialista e, com ajuda de várias terapias, me libertei
das dores", afirma.
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CABEÇA Neusa
sofria de enxaqueca por causa de disfunção
na mandíbula
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